Macca, 70

Faltam 12 minutos para que, aqui no Brasil, deixe de ser 18 de junho de 2012.

Ou seja, tenho 12 minutos para escrever sobre o septuagésimo aniversário de Sir James Paul McCartney.

Como fazer?

Impossível, claro, pelo que ele representa pra música, pro mundo, e pra mim entre todos, beatlemaníaco assumido que sou.

Então, vou recauchutar um texto que escrevi há pouco menos de um ano – não há exatos 365 dias porque fiquei um tempo sem escrever no blog naquele então e fiz um post no dia 8 de julho de 2011 homenageando 4 aniversariantes de uma vez, todos atrasados.

Nele falo muito pouco sobre o muito que Paul é.

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Sobre McCartney, escrevi as seguintes palavras (no #repeatmode) e sugeri a seguinte música:

SEXTA-FEIRA, 17 DE JUNHO DE 2011

#postfriend: Maybe I’m amazed

O Ed escreveu esse post pra lembrar o aniversário do monstro Paul McCartney. Pediu pra eu editar, mas não consigo…
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Maybe I’m Amazed por Edgar Poletti

É impossível escrever pouco sobre Paul McCartney…

O homem que faz 69 (ui) anos amanhã é, só, o músico vivo mais importante do mundo.

Após entrar na banda de John Lennon (na época chamada de “The Quarrymen”), formou, com ele, a maior parceria musical da história. Parceria que durou até 1970, com o fim dos Beatles.

Pra mim, Macca sempre foi, além de extraordinário músico, muito ambicioso. Tanto que, após a morte de Brian Epstein (empresário que levou os Beatles ao estrelato), foi ele quem “assumiu” o controle da banda – ajudado, também, pela ausência de Lennon, mais preocupado em se drogar do que em outras coisas…

A partir da gravação do White Album o grupo começou a rachar, as brigas e as diferenças se intensificaram e todos, em algum momento, ameaçaram ou de fato saíram dos Beatles, EXCETO McCartney. O fim definitivo foi decidido por Lennon, mas todos concordaram em adiar o anúncio do término, e o conseqüente lançamento dos álbuns solos de cada um (que já estavam praticamente prontos), para depois do lançamento de Let it Be, evitando assim que suas vendas fossem prejudicadas.

Até Macca, o que NÃO queria que a banda acabasse, enviar a jornalistas, junto com a cópia do seu primeiro álbum solo (chamado McCartney), um Q&A na qual ele anunciava o fim dos Beatles. 

Não adiantou a banda ter enviado o Ringo à sua casa para convencê-lo a não lançar seu álbum junto com Let it Be. Ele fez do seu jeito, um pouco por raiva, um pouco por vingança, e, pra mim, muito por ambição.

McCartney, o disco, foi feito com Paul tocando todos os instrumentos, e conta só com a pequena ajuda da Linda num ou outro backing vocal. Mas se sua contribuição musical foi pequena, seu apoio moral ao marido num dos piores momentos pessoais vividos pelo gênio foi fundamental. Tanto que a música que fecha o disco, Maybe I’m Amazed, foi dedicada a ela.

Reparem na letra: é o agradecimento explícito de Paul à Linda. Ao contrário da maioria de suas músicas, nesta a letra é mais importante do que a melodia, o que traz um apelo extra. E como diz o Toxinha, Maybe I’m Amazed representa bem a ponte entre o jovem ex-Beatle e o músico adulto.

Parabéns, Macca. E obrigado.

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Bom, já é meia noite do dia 19 de junho de 2012.

Já não é mais, portanto, o aniversário de 70 anos de Paul McCartney.

Não importa.

A falha é menor do que a lembrança de seu legado.

Ao texto recauchutado, acrescento 2 vídeos:

1) Os votos de Ringo a Macca, via youtube, assim como Paul fez no aniversário do baterista do ano passado. É tosco, não exigiu nada de Ringo, mas parece ser de coração – o “I love you man” do final é muito a cara dele.

2) Uma das músicas mais bonitas que McCartney fez em sua época pós-Beatle – ou mesmo se a incluirmos – é dos Wings, mais especificamente do disco “Band on the Run”. É, de fato, a música-título do disco, pra mim o melhor trabalho dele fora dos Beatles. E a música é muito bem elaborada, com 3 canções numa só e coisa e tal, além de um refrão e uma parte final de arrepiar. Posto aqui “Band on the Run” porque adoro a música, e pra celebrar o maior músico vivo do planeta.

L.T., o culpado

Olha que coincidência: acordei hoje de manhã às 7h00 a.m. pra ir pra academia e, na hora de escolher uma camiseta pra malhar, fui diretamente numa que meu irmão mais novo comprou pra mim quando esteve em San Diego, na California.

Uma camiseta de futebol americano, de cor azul celeste (uns diriam “azul calcinha”, mas como é meu time me recuso a reconhecer tal cor), com uns raios amarelos nas mangas e o nome “CHARGERS”, pequeno, no meio do peito.

Nas costas, um grande número 21 branco ocupando quase todo o espaço, e imediatamente acima dele, em letras maiúsculas, um sobrenome que hoje oficialmente sai do jogo para entrar na história:

TOMLINSON

Ele é o culpado de tudo.

Ele e meu irmão mais novo, claro.

Por ser 4 anos mais velho do que ele, comecei a ver futebol americano muito antes dele, na época dos 4 vice-campeonatos do Buffalo Bills, no começo dos anos 90.

Naquela época torcia pro Bills, naquele anseio de torcer pro mais fraco, por aquele que nunca ganhava e tal…

Depois fiquei muito tempo sem ver futebol americano, mas muito tempo mesmo.

Até voltar a passar na ESPN, eu começar a me interessar… gosto pouco de esporte, qualquer atividade esportiva me chama a atenção, sabe como é…

Certo dia, no ano de 2006, estou em Curitiba, na casa dos meus pais, quando começa a passar um jogo de futebol americano na TV.

Tava eu e meu irmão lá, no sofá.

Eu tinha recém voltado a ver algo de futebol americano, mas mal lembrava das regras, muito menos dos times…

… e o que dizer dos jogadores… sabia quem era o Favre e olhe lá…

Até meu irmão dizer que um tal San Diego Chargers estava em campo, e nele jogava o melhor jogador da NFL daquele então.

Disse até que torcia pro Chargers por causa daquele jogador!

LaDainian Tomlinson era o nome dele, e ele era running back.

Running back? O melhor jogador da Liga é um running back, o maluquinho que fica atrás do quarterback e corre com a bola tentando passar no meio daquele monte de gordão da linha?

Sério?

Mas os bons eram os quarterbacks, pelo que eu me lembrava. Eles é que eram os talentosos.

Running backs pra mim eram Thurman Thomas, do Bills, e Emmit Smith, do Cowboys, da época em que via o jogo…

Pois bem, LaDainian Tomlinson era o melhor jogador da Liga, reafirmava, convicto, meu irmão.

E ele nunca diria isso sem ter lido, ou visto, ou ouvido algo a respeito…

“Ele é running back que, além de ser rápido e desviar dos adversários com maestria, sabe não só receber bolas como também LANÇAR pra touchdown.”

Sério? Preciso ver esse cara jogar, então…

Nem precisei prestar muita atenção: naquela mesma noite, eu e meu irmão assistimos a uma exibição extraordinária de L.T..

Claro que o Chargers daquele ano foi montado ao redor dele, e o time era predominantemente de corrida.

Mas também, tendo um cara como ele, impossível fazer outra coisa em termos ofensivos, tamanho talento e explosão que ele tinha.

Os espaços que ele achava no meio da defesa adversária, os “slalons” que fazia entre os defensores, a velocidade de arranque e explosão e a facilidade pra jogar realmente me impressionaram.

Desde aquele dia, me tornei fã de LaDainian Tomlinson.

Vi jogos memoráveis do rapaz, o vi acabar com jogos, e vi seu técnico em 2006, Marty Schottenheimer, perder a semifinal de conferência em casa para o Patriots por cagada, mesmo com L.T. jogando como nunca e o time tendo a melhor campanha da temporada regular.

Naquele ano ele fez simplesmente 31 touchdowns, sendo 28 de corrida e 3 recebendo a bola, recorde até hoje não batido e que fez dele o MVP.

Mas claro, vi também sua decadência, principalmente após as lesões que o tiraram de 2 playoffs seguidos, e o vi de verde, defendendo o New York Jets, nos dois últimos anos.

Agora o vejo se aposentando, de óculos e gravata borboleta, elegantemente se referindo à organização que o permitirá se tornar um hall of famer.

Diz que nunca deixou de ser um Charger, e que chegou sua hora de parar.

Com a delicadeza que o caracteriza, repetiu o recentemente falecido Junior Seau, também eterno Charger, que disse se sentir “graduado” ao se aposentar.

Graduado com nada mais, nada menos do que 13.684 jardas corridas, 5a maior marca de todos os tempos, e 145 touchdowns marcados, além de 5 escolhas ao Pro Bowl.

(Fora o baile)

O San Diego Chargers, noutro belo gesto, fez um contrato de 1 dia com L.T., para que ele pudesse se aposentar pela franquia. Dean Spanos, seu proprietário, foi muito feliz ao dizer que não é sempre que um jogador define tanto um time quanto a própria NFL por quase uma década como L.T. fez.

Entre as declarações que foram feitas após o anúncio de sua aposentadoria, falaram desde ex-colegas de time como Phillip Rivers e Nick Hardwick, ex-técnicos como Marty Schottenheimer e Norv Turner, ex-jogadores como Nick Fouts e Emmit Smith e até ex-adversários como Troy Polamalu e o linebacker Ray Lewis.

O último, lenda viva do futebol americano que ainda está em atividade, foi muitíssimo feliz em sua declaração: “L.T. mudou a forma através da qual running backs eram vistos. Você pensa nele sendo um completo back de 3 downs e usando isso como receiver também. Não se viu tantos backs com tal versatilidade. Ele foi um daqueles backs que você tinha que estar em posição em todos os downs na bola. Eu acho que foi assim que ele mudou definitivamente o jogo.”

Mas legal mesmo foi a declaração do grande Drew Brees, um dos melhores quarterbacks da Liga que jogou com L.T. em seus anos no Chargers, antes de ir pro Saints. Sempre feliz em suas declarações, o “cirurgião” teceu a maior homenagem que LaDainian Tomlinson poderia receber neste dia:

“Ninguém na NFL carrega a bola hoje do jeito que L.T. fazia, nem carrega a responsabilidade do time em seus ombros do jeito que esse cara fez. Ele é um dos poucos running backs da história que pôde literalmente tomar conta do jogo, apesar do que pudesse estar acontecendo ao seu redor. LT deu cada grama de seu talento e coração a esse jogo, e nós somos todos melhores por termos tido a oportunidade de estarmos ao seu redor e sermos uma parte de sua histórica carreira. Eu contarei aos meus filhos e netos que tive o prazer de ter entregado aquela bola a ele por 5 anos, e que eu não estaria onde estou sem a confiança que ele me ajudou a ter enquanto atravessávamos momentos difíceis juntos. Um profissional verdadeiro, um guerreiro dedicado, e o melhor companheiro de time e amigo que você pode encontrar.”

Sobre nunca ter ganhado um Super Bowl, L.T. disse que são poucos os que tiveram tal privilégio, e que entende ter ganhado verdadeiros campeonatos em vitórias importantes e quebras de recorde, dadas as comemorações ocorridas nos vestiários.

Eu vou além: parafraseando Fernando Calazans, que, quando comentam que o Zico nunca ganhou uma Copa do Mundo (numa clara tentativa de diminuir seu currículo no futebol) diz, tranquilamente, “azar da Copa”, eu digo “azar do Super Bowl”, que nunca foi vencido por Tomlinson.

 

Uma pena, Troféu Vince Lombardi. Você nunca será levantado pelo maior running back que eu já vi jogar, o cara que fez com que eu voltasse a me apaixonar por futebol americano, fez meu irmão – e eu por consequência – torcer pelo Chargers, e encantou a todos.

Juro que escolhi sem querer a camiseta dele pra ir treinar hoje.

Seu anúncio só veio à tarde, e eu pela manhã usando o símbolo da minha idolatria por ele.

Uma coincidência boa, mesmo.

Eu talvez tenha sido um dos primeiros a homenageá-lo nesse dia digno de homenagens. E foram tantas, e de gente tão boa!

Se eu soubesse, não teria sido tão espontânea minha manifestação gratuita.

E eu certamente teria ido treinar triste.

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Outra homenagem que L.T. recebeu sem saber foi a do meu irmão mais novo, hoje, no Facebook.

Foi dele, inclusive, a ideia deste post.

Soube por ele da aposentadoria do nosso ídolo, e seu post de hoje me emocionou.

Faço das suas palavras as minhas, sem tirar nem pôr nada – nem o comentário de que nosso pai é nosso maior ídolo, de longe.

E posto também o mesmo vídeo que ele postou, com a compilação de alguns lances daquela sua temporada fantástica de 2006.

 

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“Hoje se aposenta um dos meus ídolos, não só dos esporte, mas como da vida!

Eu tenho algumas pessoas que considero que são idolos pessoais, por uma série de motivos e sem critério de esporte, arte música e etc. Sério, sem critério nenhum, tipo: Ronaldo Fenomeno, Dave Grohl, James Hatfield, Michael Jordan, São Jorge e assim vai.

São pessoas que em algum momento da minha vida eu levei como inspiração, tive vontade (mesmo que por pouco tempo) de ser igual a essas pessoas, ou pelo menos chegar perto do nível delas.

O primeiro idolo sempre será o meu pai e de longe. Ninguém vai chegar perto…

Uma das mais influentes nestes últimos tempos para mim, foi um jogador de futebol americano que estava começando quando eu comecei a voltar dar bola para o esporte, e encontrou o seu auge quando eu estava no máximo da minha paixão pelo esporte.

LaDainian Tomlinson, nasceu no estado do Texas, jogou pela universidade TCU e jogou 9 anos pelo time que eu torço (muito graças a ele) o San Diego Chargers. Tem vários recordes e usou com honra a camiseta #21. Não, ele não conseguiu ganhar um título, como muitos outros grandes ídolos de qualquer esportes. Mas é muito injusto julgar a grandiosidade dele pela falta de títulos…

Esporte é entretenimento, é paixão, emoção, esforço, diversão e principalmente, tem que gerar aqueles momentos de “Oh my God”. Se o esporte é isso, LaDainian Tomlinson, conhecido como LT, é um dos maiores e melhores que já vi!

Segue abaixo os highlights da temporada de 2006, em que ele ganhou o MVP e quebrou vários recordes, muitos que vão ficar para a prosperidade, uma das melhores temporadas de qualquer atleta em qualquer esporte.

Foi um prazer gigantesco acompanhar a carreira do LT e digo mais, uma das coisas que mais me orgulho foi ter visto LT ao vivo, fazendo 2 Touchdowns!

Nunca vou me esquecer dele entrando no estadio correndo e do Qualcomm Stadium lotado gritando “LT, LT, LT”

Thanks for the memories LT”

Da série “textos que gostaria de ter escrito”

Não tenho o costume de ler a Folha.

Leio algo que sai no UOL de vez em quando, às vezes lia na casa do Chico, que assinava… mas tirando isso nunca fui um grande apreciador da linha editorial do jornal.

Depois que comecei a assinar o Estadão, então…

Por mais (declaradamente) direitista que seja, bem mais do que a Folha por exemplo, acho o Estado mais bem escrito, praticando um jornalismo bastante correto. Algo que piorou bastanate na Folha nos últimos tempos…

É uma opinião, claro.

No caso dos articulistas que assinam suas colunas, no entanto, os dois principais jornais de São Paulo acabam se equivalendo.

Na seção de esportes por exemplo, a qual acompanho mais de perto, enquanto a Folha tem Juca Kfouri e Tostão, o Estado tem Antero Greco e Ugo Giorgetti.

E por aí vai.

E a Folha tem Helio Schwartsman.

Formado em filosofia, Helio costuma, como bom pesquisador, fundamentar bem o que fala.

Trata de temas do cotidiano com bastante assertividade, tentando trazer várias opiniões e estudos de diversas fontes diferentes, o que indubitavelmente acrescenta muito à discussão.

Em sua última coluna na Folha, onde escreve todas as quintas-feiras no caderno “Ilustríssima”, trata de um dos maiores chavões da administração de empresas:

O BRAINSTORMING.

Sem querer entrar na linha de raciocínio de Schwartsman, impecável na minha opinião, mas já entrando, só quero resumir em 4 pontos o que mais me chamou a atenção no texto:

1) A quantidade de ideias geradas numa sessão de brainstorming é igual (ou até menor) do que as geradas sozinho;

2) No entanto, a maior parte das novas ideias, teorias e estudos científicos surge de trabalhos em conjunto – não em brainstormings, obviamente, mas em colaborações entre duas ou mais pessoas;

3) Isso porque o ser humano evoluiu (no sentido da seleção natural de Darwin) não para ser mais racional, mas para ser melhor debatedor – para ganhar discussões – , chegando até a ignorar evidências que provam que sua posição num debate está errado;

4) Assim, e voltando ao ponto 1, um brainstorming não é um recurso efetivo de geração de ideias porque não permite que se expressem opiniões contrárias, e para se ter uma boa ideia o ser humano “evoluído” de hoje precisa de um contraponto que o permita ver além de suas ideias pré-dispostas.

Interessante, não?

O link original, da Folha, está aqui.

Reproduzo o texto abaixo na íntegra, e espero que o Sr. Schwartsman não se importe.

Ele abriu meus olhos, de verdade.

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04/03/2012 – 08h00

O “brainstorming” vs. o poder dos introvertidos

HÉLIO SCHWARTSMAN

DE SÃO PAULO

Como temos boas ideias? A questão não é trivial e já mobilizou de pensadores do porte de Platão, Descartes e David Hume a empresários preocupados em aumentar a produtividade de seus funcionários. Como não poderia deixar de ser, métodos ditos infalíveis para obtê-las enchem as estantes das seções de livros de autoajuda.A maioria dessas receitas está errada. E a razão é muito simples: o mundo é um lugar complexo demais para ser subsumido por meia dúzia de fórmulas pré-fabricadas. Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, muitas vezes topamos com uma boa ideia sem conseguir identificá-la como tal.

Recentes descobertas na psicologia e na neurociência, ainda que não permitam produzir um guia da criatividade passo a passo, pelo menos servem para descartar determinados mitos que insistem em se perpetuar.

“BRAINSTORMING”

O mais célebre deles é o do “brainstorming”. Como conta o escritor Jonah Lehrer em recente artigo para a revista “The New Yorker”, o conceito surgiu no livro “Your Creative Power” (Myers Press). Nesta obra de 1948, ainda em catálogo, o publicitário norte-americano Alex Osborn, sócio da mítica agência BBDO, prometia dobrar o poder criativo do leitor.

O livro, que foi um inesperado “best-seller”, trazia conselhos como “carregue sempre um caderninho, para não ser surpreendido pela inspiração”. O ponto alto, contudo, estava no capítulo 33, intitulado “Como organizar um esquadrão para gerar ideias”. Osborn dizia que o segredo do sucesso de sua agência eram as sessões de “brainstorming”, nas quais uma dezena de publicitários se reunia por 90 minutos e saía com 87 novas ideias para uma “drugstore”.

A principal regra de um “brainstorming” era “não critique o companheiro”. Para Osborn, “a criatividade é uma flor tão delicada”, que precisa ser alimentada com o louvor e pode ser destruída por uma simples palavra de desencorajamento.

A coisa pegou como uma praga. Osborn escreveu vários outros “best-sellers” e virou guru da literatura de negócios. Os pedagogos também adoraram e até hoje nossos filhos perdem precioso tempo na escola se dedicando a atividades de grupo onde o mantra é jamais criticar o coleguinha, mesmo que ele diga uma tremenda besteira.

O principal problema com o “brainstorming” é que ele não funciona. Como mostra Lehrer, o conceito fracassou já em seu primeiro teste empírico, em 1958. Pesquisadores da Universidade Yale puseram dois grupos de 48 estudantes para propor soluções criativas para uma série de problemas.

No primeiro, os voluntários atuariam segundo as instruções de Osborn; no segundo, cada aluno trabalharia sozinho. Estudantes que operaram individualmente apresentaram, em média, duas vezes mais propostas que os do “brainstorming”. Mais ainda, um comitê de juízes considerou essas contribuições melhores e mais factíveis que as do primeiro grupo.

ARQUITETURA

Outra noção popular e errada é a de que laboratórios e escritórios devem ter uma arquitetura que praticamente obrigue as pessoas a interagirem, favorecendo “insights” criativos. Essa moda derrubou muitas paredes, e grandes empresas se tornaram um imenso átrio, onde todos se encontravam o tempo inteiro. Estima-se que cerca de 70% dos escritórios dos EUA sigam esse padrão. Um dos maiores entusiastas do conceito de arquitetura de plano aberto era Steve Jobs, da Apple.

Como mostra Susan Cain, no recente “Quiet: The Power of Introverts in a World that Can’t Stop Talking” [Crown, 352 págs., R$ 26], a relação entre interações sociais e boas ideias é mais sutil. Num estudo chamado “Coding War Games”, Tom Demarco e Timothy Lister avaliaram a performance de 600 programadores de informática de mais de 90 companhias.

A diferença entre os profissionais era impressionante: o desempenho do melhor superou o do pior em dez vezes. E, para tornar as coisas mais misteriosas, as causas suspeitas de sempre –como experiência, salário, tempo dedicado à tarefa– não explicavam o fenômeno.

Demarco e Lister, entretanto, perceberam que os melhores programadores tendiam a agrupar-se nas mesmas firmas. Investigando essa pista, descobriram que o segredo era a privacidade: 62% dos que se saíram bem disseram que seu lugar de trabalho oferecia um ambiente reservado onde podiam se concentrar, contra apenas 19% dos que tiveram pior performance.

INTROVERTIDOS

O objetivo de Cain, nesse interessante livro que pretende ser uma espécie de manifesto de libertação dos introvertidos, é demonstrar que as pessoas precisam respeitar seu temperamento. Especialmente para os tímidos, em geral super-representados nas carreiras científicas, o excesso de interações sociais é amedrontador. Eles se saem melhor em ambientes mais tranquilos, onde sua atenção não seja requisitada para desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo.

O problema, sustenta a autora, que largou a advocacia para dedicar-se ao estudo da introversão e à orientação para tímidos, é que o mundo –o Ocidente em especial– abraçou uma cultura da personalidade, cujos valores são ditados por um ideal de extroversão. Quem não consegue ou não gosta de falar em público e motivar as pessoas já sai perdendo pontos na carreira e na própria vida.

Voltando à criatividade, antes de eliminar todas as reuniões de sua empresa, construir paredes por todos os lados e proibir os funcionários de trocar bom-dia, é preciso saber que o problema é mais complexo e nuançado.

Embora as pessoas de um modo geral trabalhem melhor sozinhas (especialmente os introvertidos), a criação continua sendo um processo coletivo. Na verdade, cada vez mais coletivo.

Ben Jones, da Northwestern University, passou os últimos 50 anos analisando quase 20 milhões de publicações acadêmicas e 2,1 milhões de patentes. Em mais de 95% dos campos e subcampos científicos, o trabalho de equipe vem crescendo. O mesmo ocorre com o tamanho das redes de colaboradores, que aumenta em média em 20% a cada década.

Se até um ou dois séculos atrás a ciência podia gravitar em torno de gênios individuais como Einstein e Darwin, à medida que ela se torna mais complexa e especializada, avanços significativos dependem cada vez mais da interdisciplinaridade que, por seu turno, depende de redes cada vez maiores.

A ideia de saber coletivo ganhou inesperado apoio no ano passado, com a publicação de um impactante artigo dos pesquisadores franceses Hugo Mercier e Dan Sperber, que virou do avesso alguns dos pressupostos da filosofia e da psicologia. Eles sustentam que a razão humana evoluiu –não para aumentar nosso conhecimento e nos aproximar da verdade, mas para nos fazer triunfar em debates.
A teoria, dizem os autores, não só faz sentido evolutivo como resolve uma série de problemas que há muito desafiavam a psicologia: os chamados vieses cognitivos.

EXPERIMENTO

Antes de prosseguir, peço licença para descrever uma experiência curiosa. O psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, resolveu espalhar 240 carteiras pelas ruas de Edimburgo. Elas não continham dinheiro, apenas documentos de identidade, cartões de fidelidade, bilhetes de rifa e fotografias pessoais.

A única variação eram as fotos. Algumas das carteiras não tinham foto nenhuma e outras traziam imagens que podiam ser de um casal de velhinhos, de uma família reunida, de um cachorrinho ou de um bebê.

A meta do experimento era descobrir se a fotografia afetaria a taxa de devolução das carteiras. Num mundo perfeitamente racional, a imagem seria irrelevante. Devolve-se o objeto perdido porque é a coisa certa a fazer. O trabalho de colocá-lo numa caixa de correio não é tão grande assim, e é o que gostaríamos que os outros fizessem, caso nós é que tivéssemos perdido os documentos.

É claro, porém, que as fotografias influíram nos resultados. Foram devolvidas apenas 15% das carteiras sem foto, pouco mais de 25% das que traziam a imagem dos velhinhos, 48% das da família, 53% das do filhotinho e 88% das do bebê.

O experimento ilustra como o cérebro opera. Embora tenhamos nos acostumado a pensar que tomamos decisões pesando prós e contras de cada uma das alternativas possíveis e extraindo com base nisso uma conclusão, o que os estudos psicológicos e neurocientíficos mostram é que, na maioria das ocasiões, a parte inconsciente de nossa mente chega de imediato a uma conclusão, por meio de sentimentos, palpites ou intuições. Neste instante, são os vieses cognitivos que estão operando.

Em seguida, a porção racional de nosso cérebro se põe a procurar e elaborar argumentos racionais (ou quase) para justificar essa conclusão. É muito mais uma conta de chegada do que um cálculo honesto.

SIGNIFICADO

O neurocientista norte-americano Michael Gazzaniga trabalha bem essa questão. Ele identifica no hemisfério esquerdo estruturas que buscam dar sentido ao mundo. O pesquisador as chama de “intérprete do hemisfério esquerdo”. É ele que busca desesperadamente um significado unificado a todas as nossas experiências, memórias e fragmentos de informação.

Ele nos faz deixar de ver as evidências que não nos interessam e atribui enorme peso a tudo o que apoia a nossa tese. Quando a história não fecha, pior para a verossimilhança: o intérprete não hesita em criar desculpas esfarrapadas e explicações que beiram o delírio.

Quem resume bem a situação é Robert Wright, em “Animal Moral” (Campus BB, 2005, esgotado): “O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude”.

Voltando ao trabalho de Mercier e Sperber, ele é bom porque consolida numa argumentação sólida explicações evolutivas para vários dos vieses, em especial o “viés de confirmação”, pelo qual fechamos os olhos para as evidências que não corroboram nossas crenças e expectativas e sobrevalorizamos aquelas que apoiam nossas teses.

Sob o modelo clássico, o viés de confirmação é uma falha de raciocínio mais ou menos inexplicável. Mas, se a razão evoluiu para nos fazer vencer em debates, então faz sentido que eu busque apenas provas em favor da minha teoria, e não contra ela.

As implicações são fortes. A mais óbvia é que a razão só funciona bem como fenômeno social. Se pensarmos sozinhos, vamos muito provavelmente chafurdar cada vez mais em nossas próprias intuições e preconceitos. Mas, se a utilizarmos no contexto de discussões mais ou menos estruturadas, aumentam bastante as chances de, como grupo, nos darmos bem.

Temos então um aparente paradoxo: as pessoas trabalham melhor sozinhas, mas a construção do conhecimento é um processo coletivo. O ruído se dissolve se reinterpretarmos o “sozinhas” como “com privacidade, mas em constante diálogo (de preferência virtual) com outros especialistas”.

PATOLOGIAS

É preciso, porém, muito cuidado. A linha que separa a sabedoria das multidões dos delírios coletivos é tudo menos nítida. Como mostra toda uma linha de pesquisas iniciada por Irving Janis, da Universidade Yale, nos anos 70, grupos incubam uma série de patologias do pensamento.

A primeira delas é a polarização. Junte um punhado de gente com opiniões semelhantes, deixe-os conversando por um tempo e o grupo sairá com convicções mais parecidas e mais radicais. Provavelmente é assim que nascem facções como o Tea Party, que reúne ultraconservadores radicais nos EUA, e até mesmo organizações terroristas. O advento da internet e das redes sociais pode estar facilitando a formação desses bandos.

A animosidade é outro elemento importante. Ponha um corintiano e um palmeirense para discutir futebol numa sala. Eles discordarão, mas provavelmente se tratarão com civilidade. Entretanto, se você colocar cem de cada lado, quase certamente produzirá xingamentos e até pontapés, quando não tragédias.

Há, por fim, a conformidade. Grupos tendem a suprimir o dissenso. Mais do que isso, procuram censurar dúvidas que um dos membros possa nutrir e ignorar evidências que contrariem o consenso que se forma. É esse o segredo do sucesso das religiões.

Nesse contexto, são especialmente divertidos os experimentos do psicólogo Solomon Asch. Ele submeteu 123 voluntários a um teste tão ridiculamente fácil que ninguém poderia errar: exibia para eles um cartão que trazia estampada uma linha com determinado comprimento. Em seguida, num segundo cartão, apareciam três linhas marcadas com letras de A a C, umas com medidas bem diferentes das outras. A missão era identificar a letra cuja linha era igual à do primeiro cartão. Em 35 tentativas, apenas um infeliz deu a resposta errada.

Mas (sempre há um “mas” em ciência), quando o pesquisador pôs comparsas seus para dar propositalmente respostas erradas antes do voluntário, a taxa de acertos despencava de 97% para 25%. Resultados parecidos foram reproduzidos no mundo inteiro.

As incursões de Asch pelos perigos da conformidade inspiraram outros experimentos famosos, como os de Stanley Milgram (no qual, pressionadas por um pesquisador, as cobaias não hesitam em dar choques que acreditam ser quase fatais num ator) e de Phil Zimbardo (ele simulou uma prisão num porão da Universidade Stanford, e os voluntários que faziam o papel de guardas se tornaram tão violentos que a encenação teve de ser interrompida).

DÚVIDA

O melhor remédio contra essas doenças do grupo é semear a dúvida, em especial se o questionamento surgir de um membro respeitado do próprio grupo. Como mostram Ori e Rom Brafman em “Sway: The Irresistible Pull of Irrational Behavior” [Broadway Books, 224 págs., R$ 19], a existência de pessoas “do contra” (“dissenters”, em inglês) são nossa melhor esperança.

Embora possa produzir fricções de alto custo emocional para todas as partes envolvidas, a figura do “dissenter” costuma levar a maioria a reformular seus argumentos (ou projetos), de modo a responder a objeções percebidas como relevantes. Essa dinâmica fica particularmente clara em situações como a de tribunais colegiados, comissões legislativas e na própria ciência. É praticamente o inverso de um “brainstorming”, onde a regra era não criticar.

O “do contra” aqui, ainda que possa provocar brigas homéricas, é um elemento fundamental para melhorar a qualidade do trabalho. O diálogo, vale frisar, nem precisa ser ao vivo. É preciso criar mecanismos que questionem os consensos.

Embora não exista receita para ter boas ideias, é possível melhorar seu desempenho se conseguir trabalhar num ambiente que lhe proporcione privacidade e o poupe de interrupções. Normalmente, é melhor estar sozinho, mas sem jamais se alijar dos debates travados em seu campo de atuação.

Quando precisar juntar colaboradores, mais vale reunir grupos heterogêneos, com um número razoável de pessoas “do contra”. Eles reduzem os riscos das patologias da conformidade. Em vez dos elogios, prefira as críticas. Apesar de desgastantes, são elas que vão ajudá-lo a melhorar suas ideias. E, mais importante, não acredite em fórmulas prontas.

Where (the truly) amazing happens

Confesso que a NBA é uma paixão antiga que tenho.

Não só minha, diga-se.

A minha geração – pelo menos a de Curitiba, onde passei minha adolescência – praticamente cresceu assistindo o basquete dos Estados Unidos. Na escola, se bem me lembro, TODO MUNDO assistia, e os primeiros produtos de merchandising que chegaram em escala ao Brasil foram os da NBA e seus times.

Todo mundo tinha um boné do Bulls ou do Lakers, que tinha que ter 8 costuras (acho) para ser “oficial”… algo muito mais valorizado na época do que é hoje, por mais cômico que possa parecer…

(e molecada, sim, as abas dos bonés daquela época tinham que ser bem, mas beeeeeeem arqueados, nada dessa aba reta horrorosa de hoje… ai do almofadinha que aparecesse com a aba reta na escola…)

Primeiro chegaram os bonés, as camisetas de tecido e as bandeirinhas (daquelas triangulares manja?), e só depois começaram a chegar as camisetas de jogo mesmo, grandonas, além de outros itens colecionáveis, na medida em que a popularidade da liga se consolidava no Brasil.

Quem olha hoje a internacionalização da NBA, bem estabelecida e com cada vez mais jogadores internacionais, talvez não se lembre que o fenômeno começou há cerca de 20 anos, quando meu irmão mais velho e eu ainda éramos moleques.

E começou muito devido a Michael Jordan, o maior jogador de qualquer esporte na história dos Estados Unidos – maior que Joe Montana (futebol americano), Babe Ruth (beisebol), Wayne Gretzky (hóquei no gelo), e até que competidores individuais como Muhammad Ali ou Carl Lewis…

Outros fatores também ajudaram, claro, como o início das transmissões da NBA no Brasil via TV Bandeirantes, através de Luciano do Valle e sua incessante busca por popularizar o esporte norte-americano por aqui, e até mesmo a popularização dos video-games, que trouxe consigo a maravilhosa série iniciada por “Lakers vs. Celtics” e seguida por “Bulls vs. Lakers”, “Bulls vs. Blazers” e outros ao longo dos anos.

Mas o fato incontestável é que Michael Jordan era o ídolo de todo mundo.

Meu irmão mais velho, justamente por ser o mais velho, foi o primeiro a escolher um time na NBA. E adivinha qual foi?

Pra mim, segundo na lista, com o Chicago Bulls fora “sobrou” o Lakers de Magic Johnson. E como eu gostava do Magic, de verdade… gosto ainda na verdade, puta comentarista que é da ESPN norte-americana…

Pro Gabi, 4 anos mais novo, sobrou o time com mais títulos, na época ainda de ressaca pela aposentadoria do enorme Larry Bird: Boston Celtics.

Obviamente não podíamos todos ter o mesmo time…

Ao longo dos anos, durante a minha adolescência, acompanhei o início do reinado de Jordan; o anúncio de que Magic tinha HIV positivo; o Dream Team de Barcelona ‘92, certamente o maior time que o basquete já viu; a primeira aposentadoria de MJ e sua aventura no beisebol; sua posterior volta pra ganhar outros 3 anéis…

… e a partir daí perdi um pouco de interesse, pra ser bem sincero.

Após a Era Jordan a NBA viveu um período de reinado dos super-pivôs, de Hakeen Olajuwon a Shaq, com alguns poucos jogadores de talento que em sua maioria não vingaram – Grant Hill e Penny Hardaway que o diga…

Por isso, e obviamente pelo número 23 não jogar mais, acompanhei meio que à distância a chegada de Kobe; a consolidação dos jogadores internacionais na NBA; a volta dos Bad Boys de Detroit; a chegada dos brasileiros; o mágico Steve Nash; o consistente San Antonio Spurs; o “super-homem” Dwight Howard; LeBron…

Muita coisa mudou nesse meu período de “hibernação”, por assim dizer, como o parágrafo anterior tentou mostrar de uma forma bem resumida. Mudaram até os times de cada um dos irmãos (ou algo do tipo)! O mais velho, após 5 anos morando em Los Angeles, naturalmente virou a casaca pro time de Kobe; eu já não torço mais pra ninguém; e o mais novo suspeito que ainda torça, secretamente, pra Boston…

A NBA de hoje tem muito talento, está muito competitiva e conta com muitos times em condições de chegarem ao título. O Dallas Mavericks por exemplo, campeão do ano passado, perdeu faz pouco tempo pro Oklahoma City Thunder nas quartas-de-finais da Conferência Oeste por 4 a 0, o que mostra que não há mais um time dominante. E nem o todo-poderoso Lakers, 5 vezes campeão desde 2000 sob o comando de Phil Jackson, chegou neste ano às finais de conferência, e ensaia uma crise desde o ano passado.

Em resumo: não que a NBA estivesse chata nos últimos 10 anos, só que agora está mais legal.

E assim voltei a acompanhar a parada.

Acho que não podia ter escolhido melhor hora: num calendário curto por causa da greve (similar à da NFL), a temporada regular foi bastante corrida, e os playoffs estão sendo muito interessantes.

Times como o Chicago Bulls do excepcional Derek Rose, o LA Clippers do ótimo Chris Paul e do atlético Blake Griffin, e o jovem e promissor Philadelphia 76ers caíram fora nos playoffs pra times, digamos, mais “tarimbados”.

E a temporada se resume atualmente a 4 grandes times, cada um com seus “power trios” – termo da moda na NBA, como disse Jeff Van Gundy, ex-treinador do Knicks e do Rockets e hoje excelente comentarista da ESPN.

No Leste, tensão enfrenta idade.

De um lado está o estrelar Miami Heat de LeBron James, Dwane Wade e Chris Bosh (machucado, acabou de entrar em quadra agora, no jogo 5 dos playoffs), muito pressionado a ganhar o título devido ao alto investimento que fez.

Do outro, o experiente Boston Celtics de Kevin Garnett, Paul Pierce e Rajon Rondo tenta mostrar seu valor apesar da idade e do desgaste oriundo de uma série de 7 jogos contra o jovem Philadelphia.

Sem Bosh, Miami precisa de Chris Chalmers como alternativa a LeBron e Wade, assim como Boston conta com o genial Ray Allen nos momentos decisivos.

Sensacional.

No Oeste, em contrapartida, talento enfrenta solidez.

O jovem Oklahoma City Thunder de Kevin Durant (cestinha da temporada), Russell Westbrook e James Harden derrotou o campeão Dallas e o poderoso Lakers em seu caminho, e deve ser o time mais talentoso da atualidade.

San Antonio Spurs, por outro lado, deve ser o time mais casca-grossa da NBA, muito devido à consistência do elenco comandado por Greg Popovic e liderado por Tim Duncan, Tony Parker e Manu Ginobili.

Não dá nem pra respirar.

Eu tô vivendo uma “segunda primavera” com a NBA, maravilhado com a qualidade dos jogos e dos jogadores.

Meu preferido entre os 4 mencionados é o Oklahoma City, porque Kevin Durant é simplesmente fantástico. Se possível numa final contra Boston, porque não gostaria de ver LeBron se dando bem e, apesar de saber que se trata de um mau-caráter, não tem como não achar Kevin Garnett um dos melhores jogadores que já vi.

Mas qualquer final e qualquer vencedor será bem-vindo.

(hoje, 5 de junho de 2012, Oklahoma City vence San Antonio por 3 a 2, e neste exato momento o Celtics acaba de vencer o Heat em Miami e também lidera a série por 3 a 2)

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Na transmissão do jogo 3 da final do Leste, entre Boston e Miami, do dia 1o de junho, o narrador da ESPN norte-americana, Mike Breen, anunciou o falecimento do ex-jogador da NBA Jack Twyman.

Até aí tudo bem, por se tratar de um jogador que atuou nas décadas de 50 e 60 no antigo Rochester/ Cincinnati Royals (hoje Sacramento Kings). Por isso, em circunstâncias normais, nem iria prestar muita atenção na notícia… não por mal, lógico, é que é uma realidade bastante distante da minha, apesar dele ter sido um grande jogador…

Só que o comentário de Breen enquanto anunciava o falecimento foi bastante impactante:

“Morreu um dos melhores companheiros de equipe da história do esporte”.

Fiquei intrigado.

O que alguém tem que fazer pra merecer esse elogio?

Pois bem, esse cara merece demais.

Em 1955, ano em que Twyman foi selecionado na segunda rodada do draft pelo Royals, a primeira escolha do time (segunda escolha geral entre todos os times daquele ano) foi Maurice Stokes, um ala-pivô de muito talento.

Nos 3 anos em que jogou na NBA, Stokes foi escolhido pro Jogo das Estrelas em todos, além de ter sido o melhor novato em seu ano de estreia e ter se tornado peça fundamental do ótimo time de Rochester naquela época – mesmo período em que se tornou grande amigo de Jack Twyman.

Aí veio a fatalidade:

Em 12 de março de 1958, no último jogo da temporada regular daquele ano, Stokes bateu pra dentro, trombou contra um defensor do então Minneapolis Lakers e caiu no chão, batendo forte a cabeça a ponto de desmaiar. Com sais de cheiro os médicos conseguiram acordá-lo, e ele voltou pro jogo.

Três dias depois, já no primeiro jogo dos playoffs contra o Pistols em Detroit, Maurie, como era chamado, fez 12 pontos e pegou 15 rebotes, numa performance aparentemente normal.

No voo de volta a Rochester, no entanto, ele começou a se sentir mal, parece ter dito que sentia que iria morrer, teve uma convulsão, entrou em coma e acordou 3 dias depois num hospital de Cincinnati, completamente paralisado.

Seu diagnóstico exato foi “encefalopatia pós-traumática, uma lesão cerebral que danificou seu sistema motor central”.

Paraplégico em teoria e tetraplégico na prática, o agora ex-jogador precisava de muitíssimos cuidados.

O que seu amigo Jack fez, então?

Não só começou a cuidar de Maurie como também, para poder dar maior assistência e arcar com os pesados custos do tratamento, se tornou seu guardião legal.

Em outras palavras, Jack Twyman ADOTOU Maurice Stokes no momento em que mais precisava de ajuda.

Não satisfeito, e obviamente movido pela necessidade, Twyman organizou, em 58, um jogo beneficente entre jogadores da NBA que arrecadou US$ 10 mil para ajudar nas despesas médicas de Stokes.

Esse jogo, conhecido como “The Maurice Stokes Game”, se tornou anual até 2000, quando foi substituído, devido a restrições da NBA e das seguradoras que cobrem os jogadores, por um torneio de golf chamado “Maurice Strokes/ Wilt Chamberlain (lendário jogador do Lakers) Celebrity Pro-Am Golf Tournament”. Os fundos arrecadados no evento são destinados a auxiliar ex-jogadores que atuaram nos primórdios da NBA.

Maurice Stokes morreu em 1970, doze anos após seu acidente, tendo aprendido a se comunicar utilizando o piscar de olhos. Sobreviveu por todo esse tempo graças ao amigo, sem dúvida.

Agora, de bate-pronto, não consigo me lembrar de nenhum esportista melhor companheiro de equipe. Sério.

Spain is different… ¿no?

De acordo com os últimos dados publicados pelo Instituto Nacional de Estatística da Espanha, a economia espanhola está oficialmente, e novamente, em recessão.

Uma economia está oficialmente em recessão quando apresenta 2 trimestres com crescimento negativo do PIB (ou queda do PIB, ou “decrescimento”, não sei muito bem como dizer, só sei que não me parece certo o tal do “crescimento negativo”). Pois o PIB espanhol, após impressionantes (NOT!) 7 trimestres de crescimento positivo, voltou a apresentar dois trimestres seguidos no vermelho, ambos com queda de 0,3%.

Esta é a segunda recessão “oficial” pela qual o país passa desde o começo da crise mundial: a primeira ocorreu no 4o tri de 2008, e se passou mais de um ano para o PIB voltar a crescer… bem, se é que crescimentos menores do que 1% podem realmente ser chamados assim, ou se encaixam melhor no conceito de “estagnação”…

Essa é a realidade espanhola há mais de 3 anos, infelizmente. O país simplesmente não cresce mais, e não consegue sair da crise.

Não tem forças pra tal.

Por quê?

O que faz da Espanha tão especial nesse sentido?

Claro que há países comparativamente piores, como Portugal e a boa e velha Grécia… isso falando apenas da União Européia…

Só que ambos países são muito menores do que a Espanha – que bem ou mal é a terceira maior economia na Zona do Euro.

Um colapso como o que está ocorrendo na Grécia tem muito mais repercussão pelo efeito sistêmico (efeito dominó?) que pode trazer à Europa como um todo do que pela sua representatividade propriamente dita. O Euro está enfrentando sua maior crise, mas…

… isso é outra história.

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Pra começar a explicar a crise espanhola, não dá pra não voltar até os anos 60, ainda em pleno franquismo.

Nessa época, enquanto os demais países europeus capitalistas viviam crescimentos sem precedentes, a Espanha ainda possuía uma economia semi-rural. Franco então começou um plano econômico de substituição de importações, fazendo com que as indústrias de base se aglomerassem sob um grande ente estatal, o já existente e remodelado Instituto Nacional de Industria (INI).

Resultado? Desenvolvimento tardio e (principalmente) ineficiente da indústria espanhola, super protegida por tarifas alfandegárias e engessada em termos de mão-de-obra.

Porque claro, tendo dedo estatal na indústria o governo criava empregos para todos – meu ex-sogro por exemplo, um direitista fanático, enchia a boca pra falar (bem) da época da INI, na qual todos tinham emprego e tal…

Ainda assim, dado o pouco desenvolvimento do país na época, tal política gerou o que ficou conhecido posteriormente como “milagre espanhol”, lá pro fim dos anos 60, que trouxe, como consequência, o baby boom tardio da Espanha (no resto da Europa Ocidental o incremento da taxa de natalidade veio nos anos 50, dez anos antes pois).

Mas aí veio a primeira crise do petróleo, em 73, que somada à velhice de Franco trouxe crise econômica E ansiedade política ao país.  O PIB, tal como hoje, apresentava os tais “crescimentos negativos” seguidos, e a perspectiva do fim da ditadura trazia à até então conservadora e direitista população da Espanha Franquista medo da ressureição da esquerda – legalizada, logo após a morte de Franco, pelo governo do Popular (direitista) Adolfo Suarez.

A solução encontrada pelos economistas espanhóis na época – quase todos da ordem católica Opus Dei, surpreendentemente influente, até hoje, no país – foi a implementação das “políticas de oferta” (ou supply side economics, posteriormente também chamadas de “monetaristas”) propostas pelos Chicago Boys (apelido dado aos idealizadores das políticas de oferta por serem da Chicago College) e adotadas em outros países como o Chile de Pinochet, a Inglaterra de Thacher e até os Estados Unidos de Reagan. A esse movimento convencionaram chamar de “Pactos de la Moncloa”, porque foi um movimento validado por TODOS os partidos políticos e TODOS os economistas influentes da Espanha na época.

(no pacto também foi acordado não remexer no ocorrido durante a ditadura nem na Guerra Civil Espanhola, no que diz respeito aos massacres, torturas e terror, algo que ainda hoje encontra muita resistência por parte da direita do país)

E adivinha só qual foi uma das primeiras medidas adotadas nos tais pactos? Além, é claro, das privatizações e da consequente implosão da INI tal como estava concebida (seguindo o modelo Thacherista de vender todo e qualquer ente estatal)?

DESVALORIZAR A PESETA, moeda espanhola até o advento do Euro.

Aqui está um dos primeiros e fundamentais motivos pelos quais a Espanha não consegue sair da crise atual:

Em todas as crises pelas quais o país passou, uma das primeiras ações econômicas tomadas era a desvalorização da peseta, o que em geral barateia os produtos nacionais no mercado externo gerando um aumento as exportações e consequente equilíbrio da balança comercial de qualquer país.

Barateia, inclusive, o TURISMO do país: a Espanha, país mediterrâneo com extensa costa e clima quente no verão, é destino de férias de quase toda a Europa Ocidental, desde ingleses e alemães até escandinavos.

Em termos comparativos, por ano a Espanha recebe cerca de 60 milhões de turistas, quase 50% a mais do que os pouco mais de 40 milhões de população que possui (o Brasil por exemplo recebe pouco mais de 5 milhões de turistas estrangeiros por ano, pruma população de quase 200 milhões). Só a França, com seus 80 milhões de turistas anuais (e população de 65 milhões), e os Estados Unidos, que recebe só pouco a mais de turistas do que a Espanha pruma população de mais de 300 milhões de habitantes, a superam no mundo nesse quesito. Em termos de PIB, então, a representatividade é importante: Espanha, França e Estados Unidos tem mais ou menos 10% do seu PIB gerado pelo turismo, enquanto no Brasil essa representatividade é 3,6%.

Assim, é importante que o país esteja barato para os turistas, e nesse sentido a desvalorização da moeda vem muito bem a calhar.

O grande problema é que tal política monetária tem ação apenas no curto prazo, porque as importações, por outro lado, se tornam mais caras, o que traz inflação (aumento de preços), mais desvalorização da moeda e um maléfico círculo vicioso.

Além disso, os produtos e serviços de um país que desvaloriza sua moeda se tornam mais baratos por um artifício monetário, não por melhora operacional, eficiência produtiva ou barateamento de recursos, o que é muito ruim porque não desenvolve a indústria nem a inovação.

Falando em termos de estratégia, pois, a vantagem competitiva da Espanha estava baseada em BAIXO PREÇO, não baixo custo, porque a produtividade da mão de obra e a inovação da economia espanhola se mantiveram muito atrasada ao longo dos anos.

E isso não é sustentável.

Após os “Pactos de la Moncloa” o Banco Central Espanhol desvalorizou a Peseta sempre que o país passava por uma crise econômica, como a vivida entre 1992 e 1995 – pra se ter uma ideia, só nessa época foram 4 desvalorizações. Desvalorizou, inclusive, no ano em que entrou no Euro, 1999, como uma espécie de “último suspiro” antes de perder o controle de sua própria moeda.

E aí entrou no Euro.

 

 

O que isso gerou pra sua economia?

Num primeiro momento, que durou até que bastante tempo (de 1999 a 2007), o efeito da entrada do Euro gerou riqueza e crescimento.

Por vários motivos na verdade.

Em primeiro lugar, para entrar no Euro os países candidatos deveriam cumprir 5 requisitos básicos:

1)   Estabilidade dos preços, ou seja, inflação menor do que a média dos três países da Comunidade Europeia com menor inflação + 1,5 pontos percentuais (2,7% ao ano, na soma dos dois);

2)   Taxa de juros-base da economia, que é a taxa dos títulos de dívida de longo prazo emitidos pelo país, menor do que a média dos três países da Comunidade Europeia com menor inflação + 2 pontos percentuais (7,8% ao ano, na soma);

3)   Déficit público, ou a diferença entre a arrecadação e os gastos públicos de um governo nacional, não superior a 3% do PIB;

4)   Dívida pública, ou a dívida externa que um país possui, não superior a 60% do PIB;

5)   Estabilidade cambial, o que na prática significava que o câmbio do país postulante deveria estar dentro das faixas estabelecidas pela Comunidade Europeia.

A Espanha, no fim das contas, cumpriu quase todos os requisitos, chegando a 1999 com 1) uma inflação de 1,8% ao ano (OK); 2) uma taxa de juros de 6,3% a.a. (OK); um déficit público de 2,6% do PIB (OK); uma dívida pública de 68,8% do PIB (NOT OK); e o cambio dentro da faixa (OK).

4 de 5 itens cumpridos, e a Comunidade Europeia, leia-se França e Alemanha, deixaram a Espanha entrar na festa.

(o mais grave não foi terem deixado a Espanha entrar mesmo sem ter cumprido todos os requisitos, até porque pode-se dizer que o país fez sua lição de casa; foi admitirem a Grécia, que não só não chegou a quase nenhuma das metas como FRAUDOU seus números para conseguir posteriormente ingressar)

E o país se beneficiou duplamente da entrada do Euro, primeiro por ter “deixado a casa em ordem”, equilibrando sua economia durante anos para poder ser admitido, e depois pela injeção de dinheiro recebida pelos Fundos de Coesão da Comunidade Europeia.

O segundo benefício funciona basicamente assim: como as realidades econômicas dos países da Zona do Euro são muito diferentes, estabeleceram-se os tais fundos para que os países com menor PIB per capita pudessem equiparar seu poder de compra com o dos países ricos. Assim, basicamente a Alemanha, a França e os países do Benelux pagaram para que Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia enriquecessem.

(claro que aumentando o poder de compra dos países da Zona do Euro os países mais ricos têm mais mercado para seus produtos, por isso pagam com gosto)

A Espanha recebeu nos 6 primeiros anos da moeda única mais de 56 BILHÕES de Euros, a serem utilizados em obras de infra-estrutura.

Bela ajuda, não? Serviu pra modernizar a malha rodoviária, construir os trens de alta velocidade (AVEs) de Madri a Sevilla, Barcelona, Valência e Coruña, e construir novos aeroportos, como o belíssimo e moderno Terminal 4 de Barajas (Madri).

No final das contas, os Fundos de Coesão, no caso espanhol, deram certo, já que nesses 8 anos o PIB per capita passou de estar cerca de 15 pontos percentuais abaixo da média europeia a se situar quase que exatamente na média.

 

 

Só que esse crescimento não veio somente graças à grana europeia, que conste.

Veio muito por conta do crescimento da construção civil, oriundo de um boom imobiliário sem precedentes no país.

Até os anos 80 o financiamento imobiliário espanhol era caro e engessado, com taxas de juros anuais de 17% fixos, e prazos de no máximo 12 anos.

Após os anos 90, e principalmente com a entrada do Euro, os prazos se esticaram e os juros encolheram, chegando ao que é hoje: taxas de Euribor (que hoje está em 0,5% a.a.) + 1,5 pp a 30 anos.

As condições extremamente favoráveis de crédito, aliadas aos incentivos tributários dados pelo governo a quem comprasse casas; à nova lei de zoneamento urbano, que aumentou o terreno urbanizável e tornou a venda de solo um negócio lucrativo aos municípios; ao descontrole do sistema financeiro, que permitiu que construtoras se alavancassem absurdamente em seus empreendimentos e que indivíduos se endividassem além do teto estabelecido para financiamentos imobiliários; e até à nova regra contábil, que passou a contabilizar os ativos pelo valor de mercado e não mais pelo valor de compra e inchou os balanços das construtoras…

… tudo isso fez com que o mercado imobiliário espanhol crescesse a ponto de se tornar O principal motor da economia do país, com a especulação imobiliária chegando a limites poucas vezes antes vistos.

A bomba-relógio afinal explodiu em 2007, quando o sistema bancário mundial entrou em colapso e um dos frágeis pilares que sustentava a especulação imobiliária ruiu.

Resultado? Recessão, aquela da qual falei no começo deste longo texto.

 

 

O que a Espanha pré-Euro faria numa situação dessas, muito semelhante, aliás, à vivida entre 1992 e 1995 (ao menos em termos de população desempregada)?

Desvalorizaria a Peseta sem pensar 2 vezes.

Bom, agora já não pode mais.

O artifício utilizado para tornar a Espanha barata frente aos seus principais compradores (seus vizinhos) hoje faz parte da história.

E o produto de exportação número um do país, o turismo, foi o primeiro a sofrer com isso, primeiro porque seus vizinhos, também em crise, não tinham dinheiro para viajar, e segundo porque a concorrência aumentou com o fim da Guerra entre os países balcânicos (Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia etc.).

Hoje é mais barato para um inglês ir à Croácia para aproveitar o litoral mediterrâneo, por exemplo, do que ir para a Espanha. E em tempos de crise o preço pesa mais do que a infra-estrutura estabelecida, o romantismo, as baladas…

O turismo espanhol já não compete mais por preço, graças ao Euro. Tenta hoje competir por diferenciação, já que para competir por custo deve aumentar sua produtividade.

Ah, a produtividade…

A economia espanhola não aprendeu a ser produtiva nem a ser inovadora, um pouco por causa da política monetária já mencionada, um pouco pela política comercial protecionista e suas altas taxas de importação, e um pouco pela pouca disposição do governo espanhol em investir no aumento da produtividade e em pesquisa e desenvolvimento.

Com as taxas de importação únicas da Comunidade Europeia a Espanha tampouco pode aumenta-las para proteger a indústria local, causando quebras dentro do tecido industrial do país.

Recessão, desemprego…

 

 

O que o governo pode fazer para reverter essa situação?

Vamos por eliminação.

Os mecanismos que estão ao alcance de um governo nacional são a política monetária, a política comercial e a política fiscal.

Se a primeira é comandada por Frankfurt e a segunda por Bruxelas, só sobra a Madri a política fiscal, que pode mexer ou nos impostos ou nos gastos públicos.

Diminuir impostos para incentivar a indústria é pouco provável que ocorra num país que precisa de maior arrecadação.

Aumentar os gastos públicos é, portanto, a única coisa prática que o governo pode fazer para reaquecer a economia no curto prazo.

Porque em médio e longo prazos o essencial seria trabalhar para aumentar a produtividade da indústria e dos serviços do país, algo que nunca foi feito e leva tempo para gerar resultados…

Aumentou-se, então, os gastos públicos, em ações que os próprios espanhóis chamam de “plano de reconstrução das calçadas das cidades” devido a gastos feitos simplesmente por gastar… a mudança da coluna onde está a estátua de Cristovão Colombo em Madri, por exemplo, levando-a da praça que leva o nome do descobridor para o meio da avenida Paseo de la Castellana, foi dinheiro gasto para nada de prático…

Maiores gastos, maior necessidade de arrecadação, certo? Só que uma economia em recessão gera cada vez menos arrecadação, o que obriga o país a pedir cada vez mais grana emprestada para pagar suas despesas.

Se precisa cada vez mais de grana, e não dá nenhuma garantia de que a economia gerará riqueza o suficiente pra poder pagar a dívida, quem vai querer emprestar dinheiro pra Espanha? E cobrando quê taxa de juros?

(no caso, a pergunta mais correta é: quem compraria títulos de dívida espanhóis nesse cenário?)

Teoricamente se alguém pede cada vez mais dinheiro emprestado, com menos garantias de que vai conseguir pagar a dívida, haverá cada vez menos gente interessada em emprestar, e cobrando taxas altas de juro dado o risco existente…

Pois no caso espanhol esse não é necessariamente o cenário existente, devido à distorção de um dos mecanismos existentes para combater a crise mundial.

 

 

No começo da crise mundial acreditava-se que uma de suas causas era a falta de liquidez.

Faltava recursos no sistema financeiro mundial que pudessem facilmente serem convertidos em dinheiro.

Teoricamente até que havia dinheiro (nessa leitura da crise, digo), mas muito dele em ativos, bons e ruins, e por isso não chegava à ponta – indivíduos, empresas etc.

Os Bancos Centrais, por isso, decidiram “injetar liquidez” no mercado, oferecendo empréstimos a juros baixíssimos aos bancos.

Com dinheiro barato à disposição esperava-se que indivíduos e empresas pudessem novamente ter acesso a crédito, fundamental para que passassem por momentos de crise, e com o aumento da oferta e do consumo a economia voltaria a crescer.

No papel, ótimo.

Na prática, na Espanha, nem tanto.

Havia dinheiro barato: o Banco Central Europeu fez diversos leilões de empréstimos a juros baixíssimos para instituições financeiras do continente, entre elas os maiores bancos espanhóis.

Só que os bancos espanhóis, muito malandros, não aumentaram a oferta de crédito no país.

Ao invés disso compraram títulos de dívida da Espanha, emitidos a juros muito mais altos do que os cobrados pelo Banco Central Europeu.

Em termos práticos o Santander, o BBVA etc., pegavam dinheiro emprestado a 0,5% ao ano e compravam títulos de dívida que pagavam juros de 5% ao ano.

Que incentivo teriam tais bancos em oferecer mais crédito no mercado se ganham dinheiro sem nenhum esforço só nessa operação?

Fora que criou no governo espanhol a falsa impressão de que o mercado como um todo ainda estava interessado em adquirir títulos de dívida do país, o que não era verdade – as agências de risco que o digam.

Ah, os bancos…

Junto com as administrações municipais são tão responsáveis pela crise atual quanto seguem contribuindo para que a situação não melhore.

Em todos os países nos quais a bolha imobiliária estourou o preço dos imóveis caiu amplamente no curto prazo, ajustando-se ao cruzamento entre as curvas de oferta e demanda.

Na Espanha não. Como boa parte dos balanços dos bancos é composta pelos ativos imobiliários (ou não vendidos ou resgatados por inadimplência), e esses ativos são contabilizados pelo seu valor de mercado, os bancos mantém os preços dos imóveis altos para que seus ativos não diminuam, e não precisem provisionar perdas.

Os imóveis dessa forma se mantém caros, a população não tem nem recursos nem crédito para compra-los, e dessa forma a crise imobiliária se arrasta.

Ah, e as administradoras municipais, autonômicas e nacionais não fazem nada porque têm rabo preso com os bancos: possuem dívidas perdoadas, tanto das administrações públicas quanto dos partidos políticos, e no caso das caixas (públicas) ainda indicam a presidência, tomando em geral decisões que atendem mais a interesses políticos do que necessidades de mercado.

A Caja Madrid, por exemplo, banco estatal, tem seu presidente indicado pela Comunidade de Madri, certo? E esse banco possui ações da Iberia, fazendo parte inclusive do conselho de administração da empresa, OK? Pois bem, quando a Iberia precisa decidir onde fará seu “hub” (aeroporto central, aonde chega e de onde parte a maioria dos voos da empresa), se em Madri ou Barcelona, qual será o voto do representante da Caja Madrid com relação ao tema no conselho da empresa?

Ou seja, as relações entre as entidades públicas, o setor bancário/ financeiro e até mesmo as empresas na Espanha são, em muitos casos, promíscua.

 

 

Por isso, em minha opinião, para que a Espanha volte a crescer de maneira sustentável, precisará de uma reforma estrutural profunda.

Muito complexa a explicação?

Que tal, em vez de tentar entender em texto, não tentamos entender a crise espanhola em vídeo?

Em cartoon, mais especificamente?

Aleix Saló é um cartunista catalão que criou uma série de comics chamada “Españistán” e outra de nome “Simiocracia”, entre outras.

Menino ainda, com cara e voz de moleque espanhol, sabe?

Mas, na boa, o maluco é um gênio.

O primeiro vídeo que ele colocou no youtube, “Españistán” (um resumo um pouco mais “video friendly” do que seus comics, segundo o próprio), é sensacional. Explica a origem da crise, cujo título é bem didático: “De aquellos barros, estos lodos”.

O segundo, quase que uma continuação do primeiro, mostra a situação atual e o porquê da crise estar distante de acabar.

(se apertar a teclinha “cc” no canto inferior direito da tela do youtube surge uma legenda em português, que se não é brilhante ajuda bastante a quem não é hispano-hablante)

Muito do que eu escrevi aqui está baseado nesses vídeos, mas não tudo. Algo resgatei das minhas aulas de economia no MBA, muito boas por sinal.

Eu tive, aliás, 2 professores de economia, um deles mais “de esquerda” e outro bem conservador, bem direitista.

O primeiro dizia que a melhor coisa que aconteceu com a Espanha foi “terceirizar” sua política monetária na Alemanha, pois desta forma o país aprenderia a se desenvolver de uma forma mais estrutural, sem recorrer a artifícios monetários que, segundo ele, são como uma droga, não dá pra deixar de usar.

Já o segundo defendia a desvalorização da moeda, porque, segundo ele, a Espanha é um país ineficiente e ponto, e precisa desse artifício para poder competir internacionalmente.

Para ele (Rafael Pampillón chama, economista renomado e colunista do jornal conservador “El Mundo”), “Spain is different”, como gostam de dizer muitos espanhóis pra justificar o mau humor, o atendimento ruim, os serviços falhos e a indústria paternalista.

Pra mim, assim como para o primeiro professor (de nome Juan Carlos Martínez Lázaro), a Espanha não é diferente.

Se é, deveria deixar de ser.

Lembram do caso do Saints? Que nenhum jogador havia sido punido… ainda? Então…

Ontem foram.

É, amigo… Roger Goodell, como falei no post explicando todo o imbróglio, num tá pra brincadeira.

O cara julgou haver provas suficientes para responsabilizar alguns jogadores, e pra cada um deles deu uma punição diferente.

Ou seja, a conclusão à qual a NFL chegou foi que os jogadores não foram apenas atores de um esquema montado pelo coordenador defensivo Gregg Williams: eles tiveram participação ativa não só na elaboração quanto no controle das vaquinhas e dos pagamentos.

O mais punido foi Jonathan Wilma.

O ótimo linebacker do Saints ficará de fora de toda a temporada 2012-13, sem pagamento, porque ofereceu US$ 10 mil a quem tirasse Kurt Warner dos playoffs de 2009 (machucando-o, claro), oferecendo a mesma quantia a quem fizesse o mesmo com Brett Favre na final da NFC, no mesmo ano.

Ele foi, de longe, o mais punido, porque, além de ter participado ativamente de todo o esquema, ofereceu uma espécie de “bicho” do próprio bolso para quem machucasse os principais jogadores dos times contra os quais o Saints jogou.

Muito feio, Wilma. Pra mim a punição está de bom tamanho, equivalente à do técnico do time, Sean Payton.

 

Na sequência, o defensive end Anthony Hargrove, hoje no Green Bay Packers, foi punido com a perda da primeira metade da temporada regular (8 jogos, no caso), também sem direito a receber.

Hargrove se fudeu (desculpem o português cristão) porque obstruiu ativamente as investigações em 2010.

Porque mentiu, em outras palavras.

Além, é claro, de ter participado do esquema de recompensas de Williams.

O jogador inclusive fez uma declaração assinada à Liga declarando não só a existência da prática, como também que ele tinha conhecimento e fez parte da mesma.

Esse não pode dizer que Deus não ajuda…

 

Will Smith, defensive end como Hargrove e com nome de estrela de cinema, teve punição mais leve: está proibido de participar (e de receber salário) dos primeiros 4 jogos da temporada regular.

Parece que múltiplas fontes confirmaram à NFL que Smith contribuiu com grandes somas de dinheiro à vaquinha.

É realmente “um maluco no pedaço”, fala ae…

(péssima, eu sei, mas não resisti – até porque a série, “Fresh Prince of Bel Air”, é genial)

 

E por último, o linebacker Scott Fujita, atualmente em Cleveland, perderá (e não receberá pel)os primeiros 3 jogos da temporada regular.

De acordo com a Liga, Fujita concedeu uma quantia significativa de dinheiro ao esquema proibido de pagamento, e por isso foi o quarto escolhido pra cristo.

 

OK, punições devidamente dadas, recado devidamente dado…

E eles, vão aceitar assim?

Claro que não.

Nem eles, nem a Associação de Jogadores da Liga Nacional de Futebol – sigla NFLPA, em inglês.

 

Parece que, no último acordo coletivo de trabalho (CBA, outra sigla), foi dada anistia aos jogadores que cometeram algum desvio de conduta anterior a 4 de agosto de 2011.

O “bounty case” ocorreu entre 2009 e 2010.

Além disso, ainda de acordo com o novo CBA, as apelações não devem ser ouvidas por Roger Goodell, por se tratar de um caso ocorrido dentro de campo.

E, como se não bastasse, casos envolvendo salários, pagamentos e até mesmo o tal “salary cap” (teto de gastos com salários por equipe) devem ser julgados por um árbitro designado pela CBA para tal, e não por Goodell.

Com base nessas 3 diretrizes contidas no acordo coletivo a NFLPA apresentará uma queixa formal à NFL.

Se não der certo, e se as apelações individuais dos jogadores tampouco surtir efeito, há boatos dando conta de que os atletas, através de seus advogados, podem entrar na justiça comum contra a suspensão do direito de exercerem suas profissões – e de receberem salários, claro.

 

Confusão à vista?

Parece que sim.

Só uma coisa está bem clara, volto a dizer:

Atitudes anti-desportivas, contra as regras do esporte e que vão contra a defesa da integridade física dos jogadores não serão mais toleradas.

Toma essa, T.O.!

Terrell Owens é certamente um dos grandes personagens da NFL dos últimos anos.

Em primeiro lugar, pelo muito que jogou em seus 14 anos de NFL, no 49ers, Eagles e Cowboys.

(no Bills e no Bengals num jogou nada, nem em quantidade nem em qualidade, por isso não conta)

Pra se ter uma ideia:

Está empatado com Randy Moss em segundo lugar, apenas atrás do grande Jerry Rice, em recepções para touchdown, em todos os tempos;

É o segundo da história em jardas recebidas (atrás, de novo, de Rice);

É o quinto em recepções totais, atrás de Rice (ah, vá), Marvin Harrison, Cris Carter e Tim Brown;

Finalizou 7 temporadas com mais de 13 touchdowns – adivinha só atrás de quem, que fez 8 dessas;

Completou 13 temporadas com mais de 50 recepções, empatado com Andre Reed e Tony Gonzalez, somente atrás do tal Sr. Arroz;

E finalmente, só como curiosidade, Owens é o ÚNICO JOGADOR DA HISTÓRIA a fazer DOIS TOUCHDOWNS em TODOS OS 32 TIMES DA NFL. Na verdade é o único jogador que fez pelo menos 1 TD nos 32 times atuais…

Notável, vai.

Mas o intrépido receiver tem uma característica que é mais marcante do que sua brilhante trajetória na Liga:

SUA MÁSCARA.

Meu irmão sempre diz que wide receiver em geral é marrento mesmo, sempre mal encarado, provocando os adversários (fazendo o que os norte-americanos chamam de trash talk), cheios de ouro e penduricalhos no corpo…

Mas Owens não é só MAIS UM wide receiver marrento.

É só O MAIS marrento que sua posição já viu.

Arrumou confusão em todos os times que jogou; suas comemorações e brigas com jogadores, tanto adversários quanto colegas, renderam suspensões e multas a seus times e a si próprio; disse que o quarterback do 49ers, Jeff Garcia, era gay; questionou a valentia de outro quarterback, o do Eagles na época, Donovan McNabb; fez um reality show com seu então companheiro de time, Chad Ochocinco (outro WR marrento); há suspeitas de que tentou se matar com overdose de analgésicos; fez um sketch sexualmente provocativo com uma das minas do Desperate Housewifes na abertura de um Monday Night Football; disse que não aprendeu ‘nada’ com Bill Parcells, um dos maiores técnicos da história, imediatamente após sua aposentadoria; usou a camiseta do Cowboys no dia seguinte à derrota do seu time de então, Eagles, para o próprio Dallas…

Pouco?

Contra o Dallas, então, protagonizou um de seus ‘causos’ mais engraçados, jogando ainda pelo 49ers:

San Francisco foi visitar o Cowboys e seu então Texas Stadium, uma das instituições do futebol americano.

No segundo quarto Jeff Garcia, o QB de SF, acha T.O. na end zone, que faz o TD.

(Muita sigla, eu sei. Espero que tenham entendido)

Em sua comemoração, sai correndo pro meio do campo, onde havia uma grande estrela azul, símbolo sagrado do Dallas Cowboys, e fica parado em cima dela, com os braços abertos, numa clara (e desnecessária) provocação ao time adversário, à sua torcida, instituição, cidade…

O troco não demorou em vir: quase que na jogada seguinte o grande Emmit Smith, running back do Cowboys (um dos maiores de todos os tempos), faz um touchdown e imediatamente sai correndo para o meio do campo, ou meio da estrela no caso. Ajoelha-se, espreme a bola no gramado com força e olha desafiante na direção da sideline do 49ers, onde estava Owens.

Quites?

Pro mala do T.O., não.

No final do jogo, com o placar já definido (34 a 17 pros Niners, uma grande vitória fora de casa diga-se de passagem), Garcia acha novamente Terrell Owens na end zone.

O gigante receiver não se faz de rogado e dispara novamente pro centro do gramado, pra pressionar, pela segunda vez no jogo, a bola no gramado, tal qual Smith tinha feito – como se as provocações já não tivessem sido suficientes naquele jogo…

Cheiro de treta no ar, não?

Deixo o desfecho pra ser visto no vídeo abaixo, que consagrou um tal de George Teague, muito bom safety do Cowboys na época…